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Boa noite! Hoje é Sexta-feira, 21/11/2014

Uga Uga


No princípio, saibam os senhores, era a coleta.
Sim, coleta para alimentar o mais esquisito animal que já existira.
Ele tinha capacidade de caminhar sobre dois membros e de manter os outros livres; desenvolveu a oposição de seu dedo polegar em relação aos outros dedos da mão, o que lhe permitia movimentos muito precisos. Como outros animais, ele aprendia com seus erros e podia transmitir conhecimento aos outros membros de suas tribos, mas de forma muito mais bem sucedida do que jamais fora visto.
Ao longo de nossa lenta evolução, isso tudo nos possibilitou domínio sobre os outros animais, maior facilidade na obtenção de alimentos, capacidade para fabricarmos ferramentas e para transmitirmos o que sabíamos aos outros.
No começo, o homem coletava frutos para  sobreviver. Durante todo o processo, descobrimos que podíamos aprender, acumular conhecimento.
Descobrimos como dominar e produzir o fogo e isso mudou nossas vidas. Podíamos enfim nos aquecer e, portanto, explorar lugares mais frios, cozinhar alimentos e amedrontar os animais ferozes que ainda nos caçavam.
O homem do Paleozóico se desenvolve muito devagar, cada pequena conquista e cada pequeno avanço rumo à rua asfaltada e ao Prozac (que na minha modesta opinião são os maiores legados da civilização) levava centenas de anos para se concretizar e mais algumas boas centenas para serem difundidos e superados.
A linguagem oral engatinhava e a fabricação de instrumentos de osso e pedra, com os quais aqueles bravos rapazes caçavam, guerreavam e faziam entalhes nas paredes, vai sendo desenvolvida até que eles possam contar com suas habilidades de grandes provedores, até que eles alcancem o topo da cadeia alimentar.
Ah, sim, queridinho. Nem sempre você esteve aí, de carro importado e óculos de grife, humilhando faxineiras e desprezando manobristas. Tempo houve em que você era apenas chiclete de onça.
Falando de toda essa mudança assim, em dois ou três parágrafos vagabundos, parece simples, não?
Mas gerações e gerações foram necessárias para que eles desenvolvessem maneiras rudes para lascar o sílex, para que eles tivessem coragem e engenho para disputar com animais maiores e muito mais bem adaptados que eles (grandes felinos, por exemplo) a caça da região. Para que eles aprendessem como usar seus polegares, seu caminhar ereto, seu cérebro grande a seu favor, na caça, na pesca, na proteção de seus bebês, na sobrevivência. Centenas de anos separam o primeiro homem paleolítico que se sentiu atraído pelo fogo que um raio causou numa árvore de outro que soubesse dominá-lo e até de um outro que descobrisse como produzi-lo sozinho. Você já foi escoteiro? Já tentou produzir fogo, pelo amor de Deus, assim, do nada? Tente produzir fogo, amiguinho, descubra quanta têmpera, obstinação, inteligência, desejo de superação e, sim, por que não, fé, são necessários para que isso aconteça.
Os hominídeos do Paleozóico viviam em grupos pequenos, abrigando-se em cavernas. Sua subsistência dependia da coleta de frutos e, depois de muito tempo, de muitas mortes, de muitas gerações que se sucederam no ensaio e erro, da caça e da pesca.
Cozinhar os animais diferencia o homem e os animais de forma brutal.
Antes de dominar o fogo já cozinhávamos, aproveitando-nos dos vapores que eram liberados por gêiseres e fontes termais.
Dominar o fogo e cozinhar os alimentos foi uma mudança e tanto porque perdíamos muitas horas de nossos dias mastigando e digerindo a carne crua. Cozinhar nos liberava um tempo louco.
Além disso, cozer alimentos ajuda a conservá-los. Menos caçadas são necessárias.
E mais uma coisa: acentua o sabor. A comida fica mais gostosa. Comer passa a ser, mais que o ato de suprir uma necessidade, um ato de prazer. Ao contrário de quando nós nos alimentávamos de raízes, a carne impõe que estejamos todos juntos na hora de comer, inventamos a refeição em família (no próximo almoço de domingo na casa da minha tia-avó, eu já sei a quem culpar).
Inventamos, rapidamente, rituais sociais básicos durante as refeições. E essa é uma atividade humana cheia de símbolos até hoje.
Cozinhar também foi uma boa porque, com isso, podíamos retardar a decomposição dos alimentos. O que não deixa de ser má idéia, num mundo onde a Brastemp Duplex inda não existia.
Durante as caçadas, outra contribuição importante da comida para nossa civilização:  vimos que os animais estavam muito mais protegidos que nós.  E que, assim, podíamos abatê-los não apenas pela carne, mas também pelas peles.
Usar peles era complicado porque apenas colocá-las sobre os ombros tolhia os movimentos e não nos esquentava de verdade. Assim, procuramos maneiras de dar-lhes forma. Outro problema das peles é que, depois que secavam, tornavam-se duras. Torná-las maleáveis passa a ser nosso objetivo. Tentamos mastigá-las (as mulheres esquimós ainda fazem isso) e sová-las com um malho.  Curtir o couro e costurá-lo (toscas agulhas feitas de osso de animais foram encontradas em cavernas paleolíticas) é coisa que fazemos há muito, muito tempo.
É quase certo que nesse período usávamos a arte também como prece, como pedido, como magia – dominávamos a vida reinventando-a – mas não era apenas o Divino que buscávamos e obtínhamos através dela.
Éramos caras complexos, cheios de emoção, fúria e medo, cheios do  que expressar.
E também, é claro, pode-se imaginar que, para esses homens com tão poucos recursos para sobreviver, instalados num ambiente tão hostil, que não conheciam a agricultura e a domesticação dos animais, de alguma forma, a capacidade de reproduzir animais e suas caçadas na pedra, poderia representar possuí-los, no sentido de também garantir a caça seguinte.
Acontece que homem do Paleolítico já não estava muito feliz sendo nômade.
Esse negócio de sair pelo mundo atrás de manadas, sem saber se na região ele vai encontrar uma caverna para abrigar seu grupo, tendo que lidar com novas feras, novas regras, com o clima atacando a sinusite e ainda por cima perdendo o Júnior na pradaria, é complicado, convenhamos.
O pobre Homem das Cavernas merecia um descanso.
Comendo carne crua: Carpaccio
Aprendi, faz muito, que o carpaccio teria sido inventado nos anos 50 do século passado, em Veneza, para curar a anemia de uma velha condessa. Só Deus sabe. Cada receita que conhecemos tem vários pais e mães e muitas origens. Só da maionese eu conheço quatro surgimentos diferentes. Mas isso não importa.
Ingredientes:
Um pedaço de aproximadamente 300 gr de contra-filé (bão, eu uso contra-filé, você pode usar filé mignon, atum, picanha, salmão ou seja lá o tipo de animal morto e cru que você prefira).
- 6 colheres (de chá) de molho inglês (a conta é assim, 2 colheres para cada 100 gr de carne)
- 9 colheres de mostarda (faça as contas)
- 6 colheres de azeite extra-virgem (mais contas)
- Sal                                                                                                        
- Pimenta-do-reino
- Rúcula ou alface americana (eu prefiro rúcula)
- 100 gr de queijo parmesão ralado ou em lascas (queijo de boa qualidade, não aquela farinha do saquinho)
Como Fazer:
Eu coloco a carne no congelador um dia antes. Na hora de fazer, fatio a carne o mais fininho que puder (geralmente eu uso a faca elétrica, mas tem quem deteste usá-la. De qualquer forma, consiga fatias finas).

Misture a mostarda, o sal, a pimenta e o molho inglês. Tem quem misture maionese. Tem quem misture creme de leite. Eu chamo a todos de infiéis.
Daí, eu disponho as tirinhas de carne num prato largo, bem separadinhas umas das outras. Jogo a rúcula por cima delas. Depois o molho. Depois o queijo. E depois brinco que aquilo é perna de mamute e que eu sou um Homem das Cavernas, um caçador solitário e voraz.
Uga-uga.
Fal Vitiello de Azevedo
www.dropsdafal.blogbrasil.com

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